Nos últimos anos, o crescimento das stablecoins levantou a discussão sobre alternativas para pagamentos internacionais. Em um mundo cada vez mais digital, transferir dinheiro entre países pode ser um processo burocrático e demorado.
Embora uma ordem de pagamento possa ser enviada rapidamente, a liquidação real depende de uma cadeia de bancos correspondentes e sistemas complexos. Grande parte dessas transações utiliza a infraestrutura do Sistema Swift, que conecta mais de 11 mil instituições financeiras em mais de 200 países. Essa rede permite a troca de mensagens entre bancos, mas não realiza a liquidação financeira diretamente, o que torna a transferência lenta, dependendo de fatores como o número de intermediários e processos internos.
Como exemplo, uma empresa brasileira que precisa pagar um fornecedor no Canadá pode esperar vários dias para que o valor seja creditado. Aqui surge a proposta das stablecoins.
O que são as stablecoins?
Diferentemente de criptomoedas como bitcoin e ethereum, que são voláteis e variam conforme a oferta e demanda, as stablecoins têm um valor mais estável, geralmente atrelado ao dólar americano. Por operarem em redes blockchain, essas moedas digitais permitem transferir valores sem a complexa infraestrutura tradicional das remessas internacionais. Grandes exemplos de stablecoins no mercado incluem Tether (USDT), Circle (USDC), Ripple (RLUSD) e PayPal (PYUSD).
Ainda que novas maneiras de movimentar recursos internacionais já estejam à disposição, o sistema financeiro global ainda se baseia na infraestrutura tradicional. Especialistas têm comentado sobre essa questão nos últimos tempos.
Entusiasmo crescente
Nos últimos anos, o interesse por esse tipo de ativo saiu das equipes de inovação e passou a incluir executivos financeiros. Gustavo Gorenstein, CEO da Jeeves Brasil, destaca que a demanda dos CFOs por operações com stablecoins tem crescido consideravelmente. No Brasil, as regulações recentes têm incentivado ainda mais esse interesse. O Banco Central, por exemplo, já começou a regulamentar as stablecoins, o que motivou um aumento nas operações no país. Estima-se que o uso delas tenha crescido quatro vezes em 2026, com empresas utilizando para pagar fornecedores e movimentar recursos internacionais.
De acordo com pesquisa, as stablecoins movimentam cerca de 76 bilhões de dólares a cada semana, um volume comparável ao da Visa em dias úteis. Porém, para alguns especialistas, isso não significa que o sistema tradicional será imediatamente substituído. A tecnologia pode avançar principalmente nas operações internacionais, mas sua adoção será gradual.
Economias potenciais
As empresas podem economizar com as stablecoins, eliminando intermediários que retêm até 1% da operação. Ao se livrar dessa cadeia, a economia pode chegar até 1,5%. Em operações com câmbio embutido, a economia pode ser ainda maior, alcançando até 3,5%. Além disso, o tempo perdido em transações problemáticas pode comprometer a liquidez e os rendimentos, especialmente no Brasil, onde os juros são elevados.
Embora o Swift tenha melhorado sua velocidade de transação, a real vantagem das stablecoins está na simplificação e redução da burocracia.
A visão de um “Pix mundial”
Especialistas debatem se as stablecoins podem se tornar uma infraestrutura capaz de redefinir os pagamentos internacionais. Gorenstein acredita que elas podem modificar a forma como o dinheiro circula entre os países. No entanto, Alexandre Chaia, professor do Insper, pondera que as stablecoins devem ampliar sua participação, mas não devem alcançar a abrangência do Pix, que opera com uma moeda nacional regulada. Professores e especialistas concordam que, apesar do potencial de crescimento, o cenário atual limita a adoção em massa.
Desafios no caminho
Apesar das vantagens, as stablecoins não estão isentas de riscos. A segurança das operações depende da qualidade das reservas e da infraestrutura que as suporta. O usuário precisa confiar na capacidade do emissor de garantir a paridade prometida. Além disso, a concorrência com moedas digitais que estão sendo desenvolvidas pelos bancos centrais, como o Drex no Brasil, é outro desafio. As regulamentações também podem apertar a supervisão das fintechs que utilizam stablecoins.
Quem sairá ganhando?
As stablecoins podem minimizar etapas e custos, mas trazem incertezas para instituições que dependem das taxas de câmbio e intermediações. Segundo especialistas, bancos e casas de câmbio, que costumam lucros com essas transações, podem perder espaço para novas opções à medida que ganham popularidade. O futuro das operações financeiras pode ser influenciado pela adaptação do sistema tradicional em relação aos ativos digitais.
Com informações de forbes.com.br.








