A recente sanção imposta pelos Estados Unidos a indivíduos e empresas com supostos vínculos ao Primeiro Comando da Capital (PCC) traz à tona um dilema: as investigações brasileiras não corroboram essa ligação. O documento da Polícia Federal (PF), que analisa uma complexa rede de lavagem de dinheiro, menciona o PCC apenas uma vez ao longo de 79 páginas.
No dia 1º de julho, o governo americano sancionou dois brasileiros e três empresas, acusando-os de estar envolvidos em uma rede de lavagem de dinheiro conectada à facção, com atuação na Flórida e em São Paulo. Essa foi a primeira ação desde que a administração de Donald Trump classificou o PCC como narcoterrorista em junho. Três dias depois, a PF iniciou a Operação Exchange mirando o mesmo grupo.
Entre os sancionados estão Victor Henrique de Oliveira Shimada, que está foragido, e Stella Stefanie de Oliveira, que foi presa. Ambos são suspeitos de fazer parte de uma organização criminosa internacional que movimentaria aproximadamente R$ 10,3 bilhões em esquemas de lavagem e ocultação de bens.
Citação ao PCC
A única menção ao PCC encontrada na documentação se dá em uma conversa entre Shimada e outro investigado, Carlos Henrique Costa Almeida, que teria perguntado se havia euros disponíveis para venda em nome de um suposto ex-membro da organização criminosa. Essa passagem não se refere a um membro ativo do PCC, mas sim a um indivíduo que não estaria mais vinculado à facção.
Conforme a investigação, Shimada atuava como um doleiro digital, fazendo a conversão de dinheiro em criptoativos e utilizando empresas falsas para ocultar depósitos e beneficiários.
Choque de versões
Apesar das suspeitas em relação a Shimada, a investigação brasileira não conseguiu adotar a interpretação americana sobre os vínculos com o PCC. O promotor Lincoln Gakya, especialista no PCC, afirmou que não havia evidências de tal ligação. Essa análise contrasta com as alegações dos EUA, que afirmam que a rede de lavagem opera ativamente em território americano e no Brasil.
Os documentos dos EUA indicam que os sancionados teriam colaborado com facilitadores nos Estados Unidos para ocultar dinheiro de origem ilícita e devolver os lucros a fornecedores de drogas.
Sanção atrapalhou operação
Delegados da PF mencionaram que a sanção americana, sem aviso prévio, prejudicou as investigações que já estavam em andamento. Embora os mandados de prisão tenham sido autorizados em junho, a capture de Shimada não ocorreu devido à busca pela localização dele e à elaboração de uma estratégia eficaz. Uma fonte da PF comentou que a divulgação da foto de Shimada dificultou sua prisão, sugerindo que uma coordenação mais próxima entre as investigações brasileiras e o FBI poderia ter otimizado os esforços.
Autoridades brasileiras estão céticas em relação à sanção dos EUA, temendo que isso interfira nas operações locais e crie sanções secundárias a empresas brasileiras.
No caso dos recentemente sancionados, a decisão implica que todos os bens sob jurisdição dos EUA sejam congelados, proibindo cidadãos e empresas norte-americanas de realizar negócios com eles.
Defesa de Victor Shimada
Em nota, a defesa de Victor Henrique de Oliveira Shimada informou não ter tido acesso aos documentos que fundamentaram a sanção, o que impossibilita uma resposta mais específica sobre o caso. A defesa ressaltou que Shimada nega qualquer envolvimento com atividades criminosas, afirmando que a situação será analisada assim que os documentos forem acessados. A reportagem não conseguiu contato com a defesa de Stella Stefanie de Oliveira.
Com informações de metropoles.com.









