A inflação nos Estados Unidos apresentou uma desaceleração em junho, mas isso ainda não trouxe tranquilidade para os investidores. Embora alguns analistas especulem sobre possíveis reajustes nas taxas de juros, a expectativa do Citi é de que essa tendência diminua com novos índices de inflação mais baixos.
O índice de preços de gastos com consumo, conhecido como PCE, registrou uma queda de 0,1% no mês. Em 12 meses, a alta foi de 3,7%, comparada a 4,1% em maio, ambos os resultados alinhados com as previsões do mercado.
O núcleo do PCE, que exclui os preços de alimentos e energia, subiu 0,13%. Após arredondamento, a variação ficou em 0,1%, inferior à mediana de 0,2% que era esperada. Comparado ao ano anterior, o núcleo caiu de 3,4% para 3,3%, ainda acima da meta de 2% do Federal Reserve.
De acordo com Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, a queda do índice geral foi impulsionada pela diminuição nos preços da gasolina e de outros combustíveis. Já a evolução do núcleo surpreendeu negativamente devido à estabilização nos serviços financeiros e de seguros.
Citi vê núcleo do PCE como fora da curva
O Citi avalia que a inflação de 3,3% no núcleo do PCE é elevada, mas destaca que se torna uma exceção quando comparada a outros indicadores. O núcleo do índice de preços ao consumidor (CPI) está em 2,6%. A expectativa do banco é que essa taxa caia para 2,3% ou menos nos próximos meses, favorecida pela base de comparação.
Além disso, o banco acredita que diferentes métricas de inflação, como médias ajustadas e medianas, devem se aproximar dos níveis que estão alinhados com a meta. Para setembro, há possibilidade de revisão do núcleo do PCE para uma taxa anual abaixo de 3%. No entanto, segundo a Nomad, o mercado ainda considera relevante a possibilidade de aumento nos juros em setembro.
Petróleo pode alterar cenário de alivio
A queda no PCE foi parcialmente impulsionada pela energia, especialmente pelo recuo de 20% no preço do petróleo WTI em junho, o que ajudou a baixar os preços dos combustíveis. Contudo, em julho, o WTI teve um aumento de 21% devido à escalada de tensões no Oriente Médio, o que pode impactar as próximas leituras e limitar a continuidade da desaceleração.
Addison Maier, gerente de portfólio da Janus Henderson, acredita que os dados do PCE estão se encaminhando na direção certa. A gestora vê essa tendência se tornando mais favorável à medida que os efeitos das tarifas de ano passado saem da base de comparação, embora a volatilidade do petróleo continue sendo um fator preocupante.
Consumo sustenta a economia americana
Os gastos dos consumidores aumentaram 0,3% em termos nominais e 0,4% após ajustados pela inflação. O consumo de bens cresceu 0,7%, enquanto o de serviços teve uma alta de 0,3%. A renda pessoal também subiu 0,2%. Entretanto, como os gastos estão aumentando mais que a renda, a taxa de poupança caiu para 2,7%, considerado um nível preocupante pelo Citi.
A economia americana teve um crescimento anualizado de 1,5% no segundo trimestre, com demanda privada doméstica subindo 3,9%, indicando ainda um cenário econômico robusto. Esse desempenho é em parte impulsionado pelos investimentos relacionados à inteligência artificial, que contribuíram com 0,8 ponto percentual ao crescimento.
Para Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest, a combinação de inflação em declínio e aumento no consumo demonstra que a economia não perdeu vigor. Ele ressalta que os dados mais recentes indicam que a economia americana avança rumo à desinflação sem perder força.
Mercado de trabalho pode influenciar decisões futuras
Os pedidos iniciais de seguro-desemprego aumentaram para 197 mil na semana encerrada em 25 de julho. Apesar de ainda indicar um baixo nível de demissões, o Citi avalia que a tendência é mais relevante que o número isolado. O banco projeta uma taxa de desemprego de 4,3% em julho, podendo ultrapassar 4,5% nos meses seguintes. Essa situação, em conjunto com a inflação em queda, poderia oferecer maior espaço para cortes nos juros.
No dia 29, o Fed decidiu manter a taxa básica entre 3,50% e 3,75%. As próximas definições sobre a política monetária dependerão da continuidade da desaceleração da inflação, do impacto da alta do petróleo e da evolução do mercado de trabalho.
Efeitos sobre as empresas e investimentos
Uma trajetória mais previsível para as taxas de juros nos EUA diminui a incerteza sobre o custo global do capital, favorecendo o planejamento das empresas, especialmente aquelas com operações em dólar. Esse ambiente afeta, inclusive, o venture capital, onde taxas de juros elevadas aumentam o retorno exigido pelos fundos, acentuando a discrepância entre preços propostos por empreendedores e valores aceitos por investidores.
Na análise de Patrus, uma inflação mais controlada tende a diminuir essa diferença, beneficiando startups que demonstrem eficiência de capital e soluções que elevem a produtividade. Além disso, a desinflação nos EUA não significa apenas alívio nos preços, mas começa a restabelecer a confiança que é essencial para o capital retornar ao risco em um horizonte mais longo.
Os dados de junho aliviaram a pressão imediata sobre o Fed, mas a discussão sobre os juros permanece em aberto. A inflação está em queda, o consumo continua forte e a volatilidade do petróleo é uma preocupação, mantendo os investidores atentos.
Com informações de forbes.com.br.







