Os dados mais recentes do crédito revelam que as famílias brasileiras continuam sentindo os efeitos do aperto monetário. Em junho, a taxa média de juros do crédito livre para pessoas físicas atingiu 64% ao ano, o maior nível em mais de um ano. A inadimplência no sistema financeiro permanece no seu pico histórico, desde que os registros começaram em 2011. Simultaneamente, quase 50% da renda nacional das famílias está comprometida com dívidas, indicando que o ciclo prolongado de juros altos limita a capacidade de consumo e mantém a pressão sobre o crédito.
Crédito pessoal impulsiona alta dos juros
De acordo com as Estatísticas Monetárias e de Crédito, a taxa média do crédito livre para pessoas físicas subiu 1,2 ponto percentual em comparação a maio e 4,6 pontos em relação a doze meses atrás. O aumento foi mais acentuado no crédito pessoal não consignado, que teve um incremento de sete pontos percentuais nas taxas aplicadas pelos bancos. Essa elevação, chamada de “efeito taxa”, se deve ao crescimento dos juros nas operações, sem alteração na composição dos contratos.
Ainda que as taxas para pessoas físicas tenham se elevado, o custo médio das novas concessões para o total de empresas e famílias permaneceu relativamente estável, com juros médios a 33,4% ao ano em junho, uma alta de 0,2 ponto percentual no mês e 1,5 pontos na comparação anual. O spread bancário, indicador da diferença entre o custo do crédito e o rendimento da aplicação, ficou em 21,9 pontos, mantendo-se praticamente inalterado em relação a maio, mas acima do verificado no ano passado.
Inadimplência se mantém no maior nível desde 2011
Com o aumento nos juros, a qualidade das carteiras de crédito também se deteriora. A inadimplência do Sistema Financeiro Nacional se estabilizou em 4,7% em junho, o mesmo percentual de maio, mas continua sendo o maior nível registrado desde 2011. No comparativo anual, houve um aumento de 1 ponto percentual, evidenciando um cenário de crédito mais desafiador. Entre as famílias, a inadimplência está em 5,6%, com alta de 1,2 ponto percentual em doze meses. O cenário é ainda mais alarmante no crédito livre, onde a inadimplência chega a 7,6%, um aumento de 1,1 ponto percentual em relação ao ano passado. Isso demonstra que, mesmo com um mercado de trabalho em crescimento, o alto custo do crédito continua a impactar a capacidade de pagamento das famílias.
Pagamento de dívidas consome parcela maior da renda
O percentual de famílias endividadas apresentou uma leve queda em maio, passando de 49,9% para 49,8%. Entretanto, isso não trouxe alívio ao orçamento: o compromisso da renda com o pagamento de dívidas subiu para 28,5%, uma alta de 0,1 ponto percentual em relação ao mês anterior e de 1,3 ponto percentual no comparativo anual. Isso indica que uma parte crescente da renda mensal está direcionada para o pagamento de parcelas e juros, limitando a capacidade de consumo e a margem para novos financiamentos.
Esse indicador tende a reagir com certa defasagem à política monetária, ao incluir o custo das operações anteriores e das novas dívidas assumidas em um cenário de juros elevados.
Crédito às famílias começa a perder força
As concessões de crédito às famílias diminuíram 0,2% em junho, ajustando os dados sazonalmente. Em contrapartida, as operações destinadas às empresas cresceram 1,4%, sustentando um avanço total de 0,4% nas concessões do mês. O estoque de crédito livre para pessoas físicas também apresentou uma retração, atingindo R$ 2,5 trilhões, queda de 0,1% em relação a maio, embora ainda registre um crescimento de 11,2% em 12 meses. O declínio é atribuído principalmente à redução nas carteiras de financiamento de veículos e de crédito pessoal não consignado. Essa mudança sugere que a elevação nos custos do crédito começa a afetar tanto a oferta quanto a demanda por novos empréstimos, especialmente nas modalidades mais sensíveis aos juros.
Prorrogação do Desenrola
Enquanto isso, o governo busca lidar com a inadimplência através da renegociação de dívidas. O Ministério da Fazenda decidiu prorrogar o programa Desenrola Brasil 2.0 por mais 30 dias, permitindo que as renegociações sejam feitas até 31 de agosto. Estima-se que cerca de 9 milhões de pessoas tenham aproveitado a iniciativa, com a expectativa de que o número alcance 10 milhões ao final da prorrogação.
Porém, os dados mostram que as políticas monetárias continuam a ter um impacto maior do que as medidas de renegociação. Apesar de um aumento nominal no crédito, o crescimento simultâneo das taxas de juros, inadimplência e comprometimento da renda indicam que o sistema financeiro está ampliando a concessão de empréstimos em um cenário de maior risco, especialmente entre as famílias que estão sob pressão devido aos altos custos do crédito.
Com informações de forbes.com.br.









