Na próxima semana, Hong Kong dará um passo importante em seu esforço para atrair investidores e grandes fortunas. Uma comissão do Conselho Legislativo irá discutir, na terça-feira (28), um projeto que visa aumentar os incentivos tributários na região, podendo isentar totalmente os impostos sobre taxas de performance e o chamado carried interest, que é a parte do lucro que gestores de fundos recebem quando superam determinadas metas de retorno.
A proposta foi apresentada pelo governo no dia 12 de junho e já passou pela primeira leitura no Legislativo, realizada em 24 de junho. O texto propõe mudanças nas regras tributárias para fundos privados e a remuneração dos gestores quando os investimentos geram resultados para os investidores.
Se as novas regras forem aprovadas, taxas de performance e o carried interest que atenderem aos requisitos legais poderão ter uma alíquota efetiva de 0%. A isenção abrangerá tanto o imposto sobre os lucros das gestoras quanto o imposto sobre salários dos profissionais envolvidos nos investimentos.
Essa medida é parte de uma estratégia para fortalecer a presença de Hong Kong na indústria global de gestão de recursos, com o objetivo de atrair mais fundos e family offices, estruturas criadas para administrar o patrimônio de famílias de alta renda.
Reforma tenta recuperar negócios que migraram para Singapura
Segundo um relatório da KPMG, publicado recentemente, essa mudança tributária é considerada a mais significativa para a indústria de fundos local em uma geração. A consultoria aponta que muitos negócios de investimentos alternativos deixaram Hong Kong nos últimos cinco anos em razão de divergências tributárias, migração que se deu em direção a Singapura. A previsibilidade do regime tributário de Singapura teria sido um fator crucial nessa mudança.
As regras em Hong Kong apresentavam incertezas sobre a tributação de estratégias como private equity e hedge funds, o que impactava a decisão das gestoras sobre onde estabelecer suas operações.
O novo modelo expande a definição de fundo, incluindo fundos de pensão e carteiras separadas, além de reconhecer como investimentos elegíveis ativos digitais e imóveis fora de Hong Kong. Uma inovação importante é que veículos que mantenham participações ou dívidas poderão ser administrados na cidade sem perder automaticamente os benefícios fiscais.
De acordo com Darren Bowdern, da KPMG China, a combinação da alíquota zero com a implementação retroativa das novas regras pode atrair rapidamente gestoras internacionais para se estabelecerem na região.
Benefício não vale para salários e bônus convencionais
A isenção tributária se aplicará apenas a remunerações diretamente ligadas ao desempenho dos fundos. Salários fixos e bônus garantidos continuarão sujeitos à tributação. Para obter os benefícios, as gestoras precisarão provar que a taxa de performance está prevista nos documentos do fundo e que os profissionais realmente atuam na gestão dos investimentos.
Atualmente, a remuneração do setor financeiro em Hong Kong pode ser tributada em até 17%. A nova proposta terá efeito retroativo ao ano fiscal que começa em abril de 2025, oferecendo uma vantagem que não existe em outros locais.
Hong Kong já administra US$ 5,42 trilhões
A reforma ocorre em um momento de recorde para a entrada de recursos na região. Os ativos sob gestão em Hong Kong cresceram 20% em 2025, atingindo 42,2 trilhões de dólares de Hong Kong, o que equivale a aproximadamente US$ 5,42 trilhões. Essa cifra superou o recorde anterior registrado em 2021, com um aumento de 193% na entrada líquida de recursos, totalizando cerca de US$ 265 bilhões.
A presença de investidores internacionais tem se destacado, representando 63% dos recursos administrados na região, e 54% se exclui a China continental. Mais da metade dos investimentos foram direcionados para fora de Hong Kong, o que demonstra que a cidade é vista como um centro internacional de captação de recursos.
Volta dos IPOs aumenta a liquidez
A estratégia tributária também se alinha à recuperação do mercado de capitais, com Hong Kong retomando em 2025 a liderança em ofertas públicas iniciais (IPOs). No primeiro semestre de 2026, 85 empresas abriram capital, levantando 210,5 bilhões de dólares de Hong Kong, e a expectativa é que mais de 180 IPOs ocorram ao longo do ano.
O ciclo de IPOs, que inclui 439 pedidos até agora, sugere um crescimento robusto no mercado. Essa volta dos IPOs não apenas amplia as opções de saída para investidores, mas também melhora o cenário para novas captações de fundos.
ETFs e ativos digitais entram na disputa
A KPMG também destaca a crescente importância dos ETFs no mercado, com esses produtos representando cerca de 17% do volume de negociações em Hong Kong. Com a expansão de estratégias e produtos, a cidade já conta com uma variedade de ETFs, e a regulamentação começou a permitir a negociação de ativos digitais e estratégias mais complexas.
A Associação de Gestão de Investimentos Alternativos se manifestou a favor da reforma tributária, afirmando que as mudanças podem potencialmente aumentar a capacidade de Hong Kong em atrair capital e talento internacional.
A reunião da próxima terça-feira será um passo para discutir os benefícios e possíveis ajustes antes que a proposta siga no Conselho Legislativo.
Com informações de forbes.com.br.









