No último ciclo de safra de soja em Mato Grosso, apenas 4% dos produtores conseguiram acessar os recursos do Plano Safra. Esse dado, obtido pela Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), ajuda a compreender a disparidade entre o crédito disponível e o que realmente chega até os agricultores. O descontentamento, no entanto, foca na parcela destinada à agricultura empresarial, que atende médios e grandes produtores. Após o lançamento do novo pacote, essa lacuna é o que chama a atenção de diversas entidades e analistas do setor.
O Plano Safra 2026/2027 prevê um aporte de R$ 610,4 bilhões para a agropecuária brasileira, sendo R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões para a agricultura familiar. Na agricultura empresarial, que recebeu R$ 384,9 bilhões para custeio e comercialização, além de R$ 140,2 bilhões para investimentos — um aumento de 38% em relação ao ciclo anterior —, a principal taxa de juros de custeio caiu de 14% para 12,5% ao ano. O Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) contará com R$ 72,6 bilhões e juros reduzidos de 10% para 9%.
Para a equipe econômica, o destaque está na combinação entre um volume recorde de recursos e a redução do custo de crédito. O secretário executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, destacou que, mesmo em um cenário de altas taxas de juros, houve um esforço para baixar os juros em todas as linhas para o agronegócio empresarial.
O ministro da Agricultura, André de Paula, enfatizou o aumento significativo nos recursos para investimentos, que subiram de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões. O presidente em exercício, Geraldo Alckmin, ressaltou como meta do plano aumentar o volume de crédito e reduzir os juros, embora essa redução tenha acompanhado a baixa da taxa Selic.
FPA contesta números do governo
A ausência de representantes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) na cerimônia de lançamento chamou a atenção. Em nota oficial, a FPA questionou a narrativa do governo sobre o programa recorde e apontou cinco distorções nos números apresentados. Segundo a FPA, com a exclusão de fundos considerados “estranhos” ao crédito rural tradicional, o Plano Safra representa uma queda de R$ 29,6 bilhões em relação ao ciclo anterior.
A FPA também apontou que os recursos para custeio e comercialização caíram de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões — uma retração de 7,2%. O aumento nos investimentos é em parte atribuído à inclusão de recursos de fundos fora do escopo tradicional, segundo a FPA. Além disso, o Moderfrota e o Programa de Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) sofreram cortes significativos.
Federarroz: juros e endividamento como barreiras
A Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz) também expressou preocupação. O presidente da entidade, Denis Dias Nunes, afirmou que o custo do crédito continua a ser um grande obstáculo. Ele enfatizou que o Plano Safra oferece valores abaixo das expectativas e que a situação de endividamento do setor dificulta o acesso ao crédito.
Mato Grosso pede atualização de critérios
A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) reconheceu avanços, mas cobrou uma revisão nos critérios de enquadramento para pequenos e médios produtores, que não acompanharam a evolução dos custos de produção. A entidade pede uma política de crédito mais acessível e menos burocrática para atender melhor os agricultores.
Um ponto em comum nas análises é a falta de recursos para o Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), que preocupam os produtores, especialmente no contexto de um possível El Niño. A Famato havia solicitado R$ 3 bilhões para o programa, mas esse pedido não foi atendido.
A analista de mercado da StoneX, Ana Luiza Lodi, destacou que grande parte dos recursos destinados à agricultura empresarial vem de modalidades atreladas a juros de mercado, o que pode impactar a capacidade de acesso dos produtores ao crédito. Apesar de algumas taxas de financiamento serem atrativas, elas permanecem elevadas para muitos agricultores que lidam com margens apertadas.
Visões contrastantes no setor
Apesar das ressalvas, há quem veja o Plano Safra como um sinal positivo. Guilherme Nolasco, representante da Inpasa, afirmou que o plano representa confiança tanto para pequenos quanto para grandes produtores. E o presidente da Câmara dos Deputados reforçou o compromisso da instituição com o fortalecimento do setor agropecuário brasileiro.
O contraste nas avaliações entre a indústria e os produtores deve moldar o mercado nas próximas semanas, com foco na renegociação das dívidas rurais, no futuro do PSR e na captação de recursos por parte de instituições financeiras.
Com informações de forbes.com.br.









