A relação entre a taxa Selic e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil sempre foi considerada previsível. Historicamente, subir a Selic para níveis acima de 14% resultava em desaceleração econômica. Exemplos disso incluem a elevação da taxa a 19% em 1999, que gerou apenas 0,5% de crescimento no PIB, e os 25% de Selic em 2002, com uma economia que cresceu somente 1,1% em 2003. Nos anos de 2015 e 2016, a Selic também esteve alta e a recessão foi severa, resultando em quedas do PIB de 3,5% e 3,3%, respectivamente.
No entanto, a situação atual é diferente. Apesar da Selic estar em 14,25%, a economia ainda apresenta sinais de crescimento. Projeções do mercado indicam que o PIB pode crescer cerca de 2%, mesmo com a inflação se mantendo acima do teto da meta, em 5,33%.
Isso levanta questões sobre a eficácia da Selic em desacelerar a atividade econômica, que agora é influenciada por fatores fiscais. Um aspecto importante dessa mudança é que o resultado primário, frequentemente considerado um termômetro da política fiscal, melhorou, mas a atividade econômica continuou aquecida. O mercado de trabalho se manteve forte, e o Banco Central não encontrou espaço para reduzir a Selic.
Impulsos Fiscais e Gasto Público
Embora se possa simplificar a explicação dizendo que o governo está aumentando os gastos, os dados não sustentam essa visão de forma isolada. Embora a despesa primária tenha aumentado, a arrecadação também cresceu, equilibrando o impacto. Essa dinâmica permitiu que o resultado primário se recuperasse após as dificuldades trazidas pela pandemia e pela PEC da Transição.
O Monitor de Expansão Fiscal Ampliada (MEFA) foi criado para abordar essa lacuna. Ele considera despesas financeiras do governo e o fluxo de restos a pagar, que também impactam a economia, mas não aparecem no resultado primário. Com a combinação de gastos mais altos e a arrecadação crescente, a perspectiva fiscal muda. O MEFA indicou que o impulso fiscal total aumentou para cerca de 2% do PIB.
Com isso, o que antes parecia um crescimento saudável pode carregar uma dívida crescente. A Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 81,1% do PIB, um aumento considerável desde o início de 2023. Os gastos atuais, custeados por uma Selic elevada, exigem pagamento em um futuro próximo, aumentando a preocupação com a dívida.
Além disso, o comportamento do prêmio de risco brasileiro em relação às taxas dos EUA adiciona uma camada de complexidade. Enquanto o ambiente de juros mais altos nos Estados Unidos deveria levar a uma diminuição do prêmio de risco no Brasil, isso não ocorreu. Na prática, as despesas primárias também cresceram substancialmente entre 2022 e 2025, um sinal de que a dinâmica econômica está mudando.
Setores Econômicos e Crescimento
Outra questão a se considerar é que diferentes setores da economia reagem de forma distinta à política monetária. Alguns setores, como a indústria extrativa, continuam a crescer impulsionados por fatores estruturais, enquanto os mais dependentes de crédito já sentem o impacto da Selic elevada. Isso gera um crescimento do PIB mesmo em um cenário de juros altos.
Adicionalmente, a descentralização fiscal, com estados e municípios aumentando seus gastos, tem um papel importante. Entre janeiro e setembro de 2024, esses entes tiveram gastos superiores aos do governo federal, o que é um reflexo de um novo cenário onde o impulso fiscal não vem somente da União.
Crescimento por Habitante e Ênfase em Resultados
É preciso também considerar como o crescimento do PIB impacta a renda per capita. No passado, um crescimento de 2% do PIB resultava em um aumento mais significativo na renda por habitante. Agora, com o crescimento populacional muito mais lento, esse mesmo número não gera um avanço equivalente. O potencial de crescimento do Brasil foi reduzido, com fatores como o envelhecimento da população e a baixa produtividade se tornando desafios constantes.
Embora a economia possa não estar condenada a crescer apenas 2% ao ano, é imperativo entender que aumentos de produtividade e reformas estruturais são essenciais para impulsionar esse teto no futuro. Nesse com contexto, o crescimento atual não é motivo de comemoração, mas sim uma situação que requer monitoramento e planejamento estratégico.
Portanto, o paradoxo da Selic elevada não é resultado de sua ineficácia, mas das mudanças na economia brasileira. Setores menos sensíveis aos juros ainda crescem, enquanto o aumento das despesas públicas e a mudança no panorama fiscal têm um papel fundamental nesse contexto. No fim das contas, o que realmente importa é como essas transformações impactarão o crescimento a longo prazo.
Com informações de forbes.com.br.








