Belo Horizonte – “Hoje não é mais hora da palavra. É hora da ação.” Essa declaração do presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais resume bem a situação vivida pelas comunidades Maxakali, localizadas no Vale do Mucuri.
Representantes do sistema de Justiça estiveram nas aldeias e ouviram relatos preocupantes dos indígenas. Eles relataram a realidade marcada por fome, desnutrição infantil, falta de água tratada, dificuldades no acesso à saúde, ausência de transporte, suicídios entre os jovens e a destruição de seu território tradicional.
“Nós só queremos viver”, afirmou Sueli Maxakali, professora.
As queixas foram apresentadas durante um encontro com o Comitê Juspovos, composto por órgãos do Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública.
Volta ao passado que não volta mais
Joviel Maxakali, pajé da comunidade, comparou a atual realidade com o que se vivia há décadas. “Antigamente, existiam muitas plantações. O indígena não passava fome. Hoje não temos mais nada para plantar”, lamentou.
“Precisamos de um projeto para a produção agrícola retornar. Assim, não passaremos fome”, pediu.
Além da alimentação, a saúde na comunidade também enfrenta desafios. “Os remédios aqui não são bons, e a demora para alcançar assistência médica é desalentadora”, disse ele.
O pajé também destacou que o atendimento de saúde que antes era mais próximo, hoje se tornou escasso. “Os enfermeiros não vão até as casas como antes”, completou.
A falta de transporte agrava ainda mais a situação. “Precisamos de carros para levar os indígenas para atendimento médico”, reivindicou. Ele mencionou a lentidão no atendimento a pedidos de socorro, que pode custar vidas.
Destruição ambiental e suas consequências
Sueli Maxakali, que também é educadora, associou a crise vivida pelos Maxakali à devastação ambiental no Vale do Mucuri. “Toda a área era do nosso povo e coberta pela Mata Atlântica. A exploração mineral transformou nossa terra”, lamentou.
Ela ainda alertou sobre os efeitos dessa destruição na saúde e na alimentação da população. “Perdemos espécies tradicionais que eram essenciais para a nossa dieta”, explicou.
“O desaparecimento da Mata Atlântica afetou nossa saúde e aumentou a desnutrição”, ressaltou.
A dificuldade no acesso a hospitais e a transferência para outros estabelecimentos de saúde são outros pontos críticos, com relatos de morosidade que aumentam aleteoria de risco.
Crisis hídrica e sanitária
Marilton Maxakali, professor e liderança de uma das aldeias, denunciou a qualidade da água como um dos principais problemas enfrentados. “A água que recebemos é imprópria e causa doenças”, revelou.
“Nós bebemos água amarelada, cheia de ferro. Isso prejudica todos nós”, afirmou.
Ele também criticou a falta de coleta de lixo nas aldeias, o que agrava a situação de saúde da comunidade, especialmente entre as crianças.
“Preparar alimentos com essa água é um risco”, alertou Marilton.
Problemas psicológicos e suicídio
As lideranças também destacaram a questão da saúde mental nas comunidades. “É urgente um atendimento psicológico para os jovens isolados que enfrentam problemas emocionais”, disse Marilton.
Relatos tristes vieram à tona, incluindo suicídios de jovens. “Dois dos meus irmãos tiraram a própria vida. Precisamos cuidar do nosso povo”, desabafou.
“Muitos jovens estão sofrendo”, completou o pajé Isael.
Ele enfatizou que medidas devem ser tomadas para proporcionar esperança aos jovens, como projetos que incentivem a agricultura e atividades comunitárias.
Exploração e custos excessivos
Marilton também alertou sobre práticas abusivas de comerciantes que vendem produtos a preços exorbitantes, acreditando que os indígenas não possuem conhecimento sobre os valores justos.
Além disso, o alto custo do transporte para acessar serviços essenciais, como bancos e hospitais, compromete ainda mais a renda das famílias. “Com o transporte caro, sobra pouco para alimentação”, desabafou.
Socorro às comunidades Maxakali
De acordo com o juiz do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, foi formalizado um pedido de socorro pelas comunidades indígenas. “Estamos aqui porque recebemos um apelo urgente do povo Maxakali”, afirmou o magistrado.
As autoridades reconhecem uma grave crise humanitária e buscam construir soluções conjuntas para atender às demandas da comunidade.
“Os Maxakali só pedem o direito mais básico: viver”, finalizou.
Tarefas do Estado
Durante a vistoria, Durval Ângelo Andrade, presidente do TCE-MG, destacou que o Estado tem uma dívida histórica com os Maxakali. Ele apontou que os problemas de saúde, nutrição e educação ainda persistem.
O presidente do tribunal prometeu que as auditorias serão intensificadas para garantir que as responsabilidades dos governos sejam cumpridas.
“Nada justifica crianças morrendo de fome e desnutrição. É hora de agir”, ressaltou.
- Falta de incentivo à produção agrícola e insegurança alimentar;
- Escassez de medicamentos e demora no atendimento de saúde;
- Ausência de transporte para deslocamento até hospitais e bancos;
- Água de baixa qualidade e deficiência no saneamento básico;
- Falta de coleta de lixo nas aldeias;
- Crescimento dos casos de sofrimento mental e suicídios entre os jovens;
- Alto custo do transporte e denúncias de preços abusivos no comércio.
Esses relatos foram compartilhados durante a visita institucional às aldeias Maxakali, ressaltando a necessidade urgente de políticas públicas para garantir melhores condições de vida para essas comunidades.
Com informações de metropoles.com.







