O sistema financeiro do Brasil enfrenta um paradoxo: a quantidade de empresas disputando o mercado de crédito nunca foi tão alta, enquanto o número de brasileiros endividados continua crescendo. O país já conta com cerca de 1,6 mil fintechs, consolidando-se como o maior ecossistema de tecnologia financeira da América Latina e mudando a relação das pessoas e pequenas empresas com os empréstimos. De acordo com um levantamento realizado pela PwC Brasil e pela Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), apenas 44 fintechs de crédito participantes dessa pesquisa concederam R$ 53,8 bilhões em empréstimos em 2025, um aumento expressivo de 51% em relação ao ano anterior. Para efeito de comparação, em 2016, esse valor era de apenas R$ 161 milhões, mostrando um crescimento de mais de 330 vezes em menos de uma década.
Essa expansão de crédito ocorre paralelamente ao aumento do endividamento. Atualmente, 83,5 milhões de brasileiros enfrentam alguma forma de dívida, conforme os dados históricos do Serasa. Este cenário se agrava em um contexto de juros básicos que giram em torno de 14,25% ao ano, um dos mais altos do mundo. Isso levanta uma reflexão: será que o país está lidando com um excesso de crédito?
Das operações financeiras realizadas pelas fintechs, 61,4% são voltadas à concessão de crédito, evidenciando que essa prática é predominante. No entanto, segundo Roberto Troster, especialista na área, o Brasil não está excessivamente creditado. A relação entre crédito e PIB se manteve estável, variando de 53,9% para 55,9% na última década, um índice que ainda é considerado baixo em comparação a países com rendas per capita similares. Ele ressalta que, enquanto a quantidade de crédito cresceu, a qualidade da concessão precisa ser aprimorada.
A inclusão financeira tem trazido milhões de novos tomadores ao sistema, muitos deles sem a devida orientação financeira, e algumas instituições têm ampliado a concessão de crédito sem a devida avaliação da capacidade de pagamento dos clientes. O verdadeiro desafio não é a quantidade de crédito, mas a forma como ele está sendo concedido.
Com o crescimento, as fintechs têm absorvido uma maior fatia do risco de crédito. Em 2025, a taxa média de inadimplência dessas instituições chegou a 10,1%, um aumento em relação aos 9,5% no ano anterior, superando o índice de 3,5% do sistema bancário tradicional, conforme analisado pelo Banco Central. Este aumento pode ser entendido à luz da expansão acelerada do setor, que já atende 95 milhões de pessoas físicas e 72.249 empresas, focando em públicos que historicamente foram menos atendidos pelos grandes bancos.
Entre 2019 e 2022, o papel das fintechs em atualizações de registro de inadimplência aumentou em 129%, mostrando seu crescimento na inclusão e exclusão de dívidas. Atualmente, elas representam cerca de 3,6% dos registros de inadimplência, segundo dados da Serasa. Para Ricardo Thomaziello, diretor de Analytics da Serasa Experian, esse avanço reflete a crescente relevância das fintechs no crédito. O modelo totalmente digital e ágil de cobrança facilita tanto a inclusão quanto a retirada dos registros de dívida.
Porém, surge a questão se as fintechs estão contribuindo para o aumento do endividamento no Brasil. Troster acredita que a resposta é mais complexa do que um simples sim ou não. Ele destaca que, embora o crédito tenha se expandido, a qualidade da sua concessão é que merece atenção. O sistema financeiro categoriza os clientes conforme seu perfil de risco; isso influencia diretamente as taxas de juros. A dificuldade surge quando um consumidor, muitas vezes sem um histórico financeiro robusto, consegue obter empréstimos em diversas instituições sem uma avaliação abrangente de sua capacidade de pagamento.
Quando um cliente esgota seu limite em uma instituição e busca crédito em outra, o risco para todo o sistema aumenta. Troster afirma que essa situação não é exclusiva das fintechs, mas a forma como elas ampliaram o acesso ao crédito agrava a necessidade de avaliações detalhadas sobre o endividamento dos solicitantes. Sem essa visão, a inclusão financeira pode, paradoxalmente, promover o superendividamento.
Em resposta ao aumento da inadimplência, as fintechs mudaram sua abordagem, tornando a concessão de crédito mais conservadora. De acordo com a pesquisa da PwC, a proporção de crédito sem garantia caiu de 60% em 2019 para 14% em 2025. As fintechs estão priorizando modalidades com menor risco de perda, como o crédito consignado, que passou de 40% para 47%. Essa mudança de estratégia visa um controle de risco mais eficaz, porém os dados ainda revelam que 79% das fintechs ofereciam operações com algum tipo de garantia, um leve aumento comparado a 77% do ano anterior.
O crédito chega às pequenas empresas
O Brasil se destaca como um grande laboratório de fintechs, fruto de uma combinação única de fatores. Antes da popularização dos smartphones, o país já possuía um sistema bancário digitalizado. Com a chegada do Pix, o Open Finance e uma regulação que facilitou a criação de novas empresas financeiras, as barreiras foram significativamente reduzidas. Por outro lado, uma população já habituada a realizar transações digitais e uma alta demanda de consumidores e empresas com difícil acesso ao crédito abriram novas oportunidades.
As micro e pequenas empresas foram as que mais ganharam com a movimentação do mercado. Durante anos, o maior empecilho ao crédito não foi a falta de recursos, mas a carência de informações confiáveis sobre os tomadores. Com a chegada das plataformas digitais, surgiu uma nova forma de avaliação de risco, utilizando dados de vendas, fluxo de caixa e comportamento de pagamento, ampliando as opções de crédito para empresas antes marginalizadas.
A base de clientes pessoas jurídicas nas fintechs cresceu 30%, totalizando 72.249 empresas, sendo 91% delas microempresas, que frequentemente não encontram opções adequadas de crédito nos grandes bancos. Por exemplo, dentro do ecossistema do Mercado Livre, 67% dos pequenos empreendedores conseguiram seu primeiro empréstimo por meio do Mercado Pago. Segundo Daniel Davanço, diretor sênior de PMEs, muitos desses empresários ainda enfrentam dificuldades com as opções tradicionais de financiamento.
No Banco Inter, o crédito é parte de um serviço mais abrangente, baseando-se no fluxo financeiro dos clientes dentro da plataforma, onde eles gerenciam suas contas e pagamentos. A carteira de crédito do banco alcançou R$ 50 bilhões no primeiro trimestre de 2026, com a maioria das operações apresentando algum tipo de garantia.
O cenário de inovação não se restringe apenas às fintechs. Empresas que oferecem infraestrutura financeira, como a QI Tech, permitem que diversas companhias criem suas próprias operações de crédito, utilizando tecnologia e licença bancária. A inteligência artificial vem ajudando a calcular o risco de crédito de forma mais precisa, facilitando a análise ao cruzar informações como fluxo de caixa e dados transacionais.
Mais concorrência, os mesmos juros
No início da expansão das fintechs, havia uma expectativa de que a maior concorrência traria um desconto nos juros, mas a realidade foi um tanto distinta. Embora a concorrência tenha eliminado algumas tarifas, como anuidades em cartões de crédito, no caso do crédito em si, os spreads se mantiveram elevados. Apesar do aumento das operações e da inclusão de mais brasileiros no sistema financeiro, as taxas se mostraram até mais altas em algumas categorias do que há uma década.
As especialistas explicam que a maior concorrência não se traduziu em juros menores, e que o problema está também na qualidade das carteiras de crédito. À medida que mais consumidores têm acesso ao crédito, muitos tomadores não têm garantias reais, aumentando o risco de inadimplência, o que acaba refletindo nas taxas.
Para amplas modalidades de crédito, as fintechs cobraram juros inferiores em quatro das sete categorias avaliadas. Contudo, em algumas linhas como o crédito pessoal sem consignação, as taxas foram acima da média do mercado, refletindo o perfil mais arriscado de seus clientes. O custo de captação é um ponto que pode ser subestimado nessa competição: enquanto os grandes bancos conseguem recursos a custos mais baixos, as fintechs dependem de ferramentas financeiras que demandam maior remuneração aos investidores.
O próximo teste das fintechs
A primeira década das fintechs no Brasil foi marcada por mudanças significativas e a abertura do mercado. O Banco Central introduziu novas categorias de instituições financeiras e o Open Finance, promovendo um crescimento acelerado de empresas na área de crédito e pagamentos. Contudo, atualmente, o regulador inicia um novo ciclo de consolidação, endurecendo as regras para essas instituições financeiras, elevando o capital mínimo necessário para operar.
Com essa transformação, a criação de fintechs tornou-se mais cara e, segundo dados do Banco Central, uma parte significativa das instituições terá que aumentar seu capital nos próximos anos para se adequar às novas exigências. Essas mudanças foram estimuladas após uma reflexão sobre o uso de recursos e a saúde financeira dessas instituições.
Com a evolução do regulador, é essencial que as fintechs demonstrem solidez e controles financeiros adequados para garantir a continuidade e a confiança no setor que avança. Além disso, a melhoria na qualidade das informações é fundamental para otimizar o acesso ao crédito e, assim, proporcionar condições mais favoráveis aos consumidores.
Com informações de forbes.com.br.







