A Copa do Mundo de 2026 terminou para o Brasil no dia 5 de julho, após uma eliminação que deixou o país em clima de luto futbolístico. Enquanto isso, algo intrigante estava em curso: 34,8% da população apostou durante o torneio, segundo uma pesquisa da fintech Klavi com dados de Open Finance. O valor médio das apostas superou R$ 188 por operação.
Esse dado revela uma sociedade que transformou o entretenimento em transação e a paixão em combustível para uma indústria que movimenta cerca de R$ 37 bilhões por ano, um valor que dobrou em apenas doze meses. Atualmente, o Brasil é o quinto maior mercado de apostas do mundo, conforme um estudo da consultoria Regulus Partner, que atua no setor de esportes e lazer.
A questão que surge não é apenas moral, mas econômica e social, refletindo o que decidimos fazer com nossa atenção.
O espetáculo como relação social
No livro “A Sociedade do Espetáculo”, de 1967, o filósofo francês Guy Debord fez uma reflexão que parece se encaixar perfeitamente em 2026: “o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediada por imagens”. A vida vivida é substituída pela sua representação.
Os brasileiros que apostam na Copa enquanto consomem memes e participam de narrativas coletivas estão vivenciando essa mediação. A experiência direta do jogo foi trocada por uma intermediação digital, onde cada clique e cada aposta geram valor econômico para terceiros.
Tim Wu, em “The Attention Merchants”, aponta que a economia moderna reconheceu a atenção humana como um recurso escasso e, portanto, um produto comercializável. As plataformas de apostas não oferecem entretenimento, mas sim compram atenção para convertê-la em transação. O usuário acredita que está no controle, mas no fundo, foi alvo antes mesmo de abrir o aplicativo.
Byung-Chul Han, em “Psicopolítica”, aprofunda essa ideia, afirmando que no capitalismo digital a exploração é interna, resultando em autoexploração incentivada por algoritmos. O apostador se sente no controle e se divertindo, mas na verdade é uma matéria-prima para um sistema que visa maximizar seu tempo de tela e as transações.
A contribuição de Pierre Bourdieu reforça essa análise. Em “A Distinção”, ele observa que o consumo cultural perpetua desigualdades. Aqueles que têm capital cultural suficiente conseguem se proteger da manipulação, enquanto os que não têm podem se tornar vítimas. As apostas não afetam todos de maneira igual, atingindo mais intensamente quem tem menos repertório para distinguir entretenimento e armadilhas.
O paradoxo brasileiro em números
Os dados revelam um cenário alarmante no Brasil: há 71,7 milhões de pessoas com nome negativado, o que representa 43,1% da população adulta, um recorde histórico conforme dados de agosto de 2025. Além disso, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) de abril mostrou que 80,9% das famílias têm algum tipo de dívida.
Nesse contexto, pelo menos 10,9 milhões de brasileiros estão envolvidos com o uso problemático de apostas, segundo estudo da Unifesp em parceria com o Ministério da Justiça. O número de atendimentos por vício em apostas no SUS aumentou 17 vezes em sete anos, passando de 305 casos em 2018 para 5,3 mil em 2025.
Esses números são preocupantes: R$ 37 bilhões em apostas, 71,7 milhões de CPFs negativados e 96% da população apresentando baixa cidadania financeira. A mesma sociedade que luta para manter o nome limpo encontra energia e recursos para alimentar uma indústria que lucra com sua capacidade de se distrair do que realmente importa.
Este não é um julgamento, mas uma constatação: a energia desperdiçada no espetáculo poderia ser redirecionada para provocar transformações concretas na vida das pessoas, mas a distração frequentemente parece mais atrativa do que a disciplina.
As três pontas que se alimentam da mesma engrenagem
O problema se configura de forma tripartite, com todos os lados se beneficiando do sistema. As empresas de apostas geram bilhões, enquanto o sistema financeiro obtém lucros com juros, crédito fácil e taxas sobre transações. As plataformas digitais também lucram com o engajamento de cada aposta e polêmica. A desatenção se tornou o “petróleo” do século XXI, com refinarias a cada smartphone na mão do usuário.
O Estado regulamentou as apostas apenas em 2025 e ainda precisa aprimorar suas fiscalizações. A educação financeira segue ausente das escolas, mesmo sabendo que a falta dela gera mais custos ao governo do que qualquer programa de inclusão. O Banco Central detecta o problema, mas soluções educativas não chegam até o cidadão.
O público participa do espetáculo, aposta e se endivida, mas não demanda educação financeira como um direito. E aqui o ciclo se fecha: as três pontas envolvidas muitas vezes negligenciam essa questão, mas é o cidadão que mantém o funcionamento do sistema. Se ele começar a exigir regulação eficaz, educação financeira nas escolas e transparência, o sistema terá que se adaptar.
O que muda quando a consciência se acende
A educação financeira não é somente sobre dinheiro, mas sobre autonomia nas escolhas. Essa autonomia se inicia quando você reconhece que faz parte de um sistema que captura sua atenção e a transforma em transação.
Para investidores, a lição é clara: o mesmo impulso que leva alguém a apostar na Copa, pode fazer a pessoa vender ações em pânico ou comprar no auge da empolgação. O mecanismo psicológico é o mesmo: a reflexão é substituída pela reação, estratégia pelo impulso e sinal pelo ruído.
A educação financeira deve trabalhar para resgatar a autonomia que a economia da atenção tomou. É essencial que as pessoas entendam que cada real apostado por impulso é um real que não será direcionado para a reserva de emergência, investimento mensal ou patrimônio necessário para atingir objetivos de vida.
Os brasileiros não precisam deixar de torcer ou sentir emoção pelo futebol, mas é vital reconhecer a existência de uma indústria projetada para transformar essas emoções em transações. O conhecimento é a principal defesa contra isso.
No fim das contas, a autonomia financeira consiste em entender quando outros tentam converter sua paixão em lucro, e ter a disciplina de investir seu tempo, atenção e dinheiro com a mesma intenção que você dedicaria à construção de seu patrimônio.
Com informações de forbes.com.br.








