
De acordo com informações levantadas pelo www.cnnbrasil.com.br, a vida moderna, marcada por um ritmo acelerado e uma inundação constante de informações, tem contribuído para a proliferação de estresse e ansiedade, que se tornaram quase onipresentes. Em resposta a essa realidade, um número crescente de indivíduos está revisitando o antigo hábito de preparar chás calmantes como um ritual relaxante antes de dormir.
A medicina contemporânea está se voltando para a química dessas ervas em busca de compreender seu impacto no cérebro. O que se revela é que a natureza nos oferece substâncias químicas eficazes que podem auxiliar na manutenção da saúde mental.
Para esclarecer quais infusões realmente apresentam benefícios com base em evidências científicas, o portal CNN Brasil entrevistou a médica Inácia Simões, especialista em Anestesiologia e Dor no Centro Clínico Saint Moritz. Ela ressaltou que as tradições populares de utilizar chás para acalmar a mente obtêm respaldo significativo nas pesquisas atuais. “A literatura médica destaca cinco chás que possuem propriedades calmantes, incluindo camomila, valeriana, maracujá (passiflora), lavanda e erva-cidreira (melissa)”, destacou a profissional.
A médica enfatiza que esses fitoterápicos não se restringem ao efeito placebo; na verdade, “estudos clínicos revelam que esses chás demonstram efeitos ansiolíticos e sedativos, atuando através da modulação do sistema GABAérgico”.
A química do relaxamento e o poder do GABA
Para desvendar como uma simples xícara pode influenciar o funcionamento cerebral, é necessário investigar a atuação dos neurotransmissores. A ansiedade surge, em grande parte, da hiperatividade das redes neuronais. Inácia Simões observa que a maioria dessas ervas atua precisamente na modulação do sistema GABAérgico, um mecanismo comum a ansiolíticos tradicionais. Contudo, a principal vantagem reside em seu perfil de tratamento natural, que geralmente provoca menos efeitos colaterais cognitivos e apresenta menor risco de abstinência.
A especialista salienta que a interação dessas plantas com o organismo é complexa e sistêmica, englobando também a modulação de vias serotoninérgicas e monoaminérgicas, além de regular o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, proporcionando benefícios anti-inflamatórios significativos.
O top 5 das ervas com ação neurológica comprovada
A literatura médica detalha as características clínicas de cada um desses cinco chás, mostrando que cada planta oferece propriedades únicas no combate ao estresse e à insônia.
Camomila (Matricaria recutita): Conhecida mundialmente, esta erva é famosa por seus efeitos ansiolíticos, sedativos e analgésicos. Sua eficácia se deve à modulação do GABA e à inibição da enzima FAAH, que metaboliza endocanabinoides. Revisões sistemáticas demonstraram sua eficácia, embora muitos estudos tenham um alto risco de viés.
Valeriana (Valeriana officinalis): Com um aroma característico, essa raiz é reconhecida por seus efeitos sedativos e ansiolíticos, atuando diretamente em receptores GABA-A. Embora as evidências sejam consideradas inconclusivas, é uma das plantas com maior potencial para tratar insônia relacionada à ansiedade.
Maracujá / Passiflora (Passiflora incarnata): As folhas dessa planta tropical possuem clássicos efeitos ansiolíticos e sedativos, promovendo modulação GABAérgica. Estudos indicam que as combinações com valeriana resultam em uma eficácia comparável a tratamentos convencionais.
Lavanda (Lavandula angustifolia): Para além de seu uso na aromaterapia, a ingestão de lavanda também proporciona benefícios em casos de ansiedade e insônia, por meio da modulação no sistema GABAérgico. É considerado um dos fitoterápicos com melhor evidência na atualidade.
- Erva-cidreira / Melissa (Melissa officinalis): Essa erva oferece efeitos ansiolíticos e calmantes, respaldados por evidências clínicas que reforçam seu uso no tratamento de transtornos de ansiedade.
O mito do "natural não faz mal": segurança e riscos
A crença de que produtos naturais não causam efeitos colaterais é um equívoco comum. Apesar de os chás citados apresentarem perfis de segurança favoráveis em comparação com medicamentos convencionais, é fundamental adotar cuidados.
A médica Inácia Simões observa que, embora camomila e lavanda sejam geralmente bem toleradas, outras ervas precisam de atenção redobrada. “A valeriana, por exemplo, pode gerar cefaleia e alguns efeitos gastrointestinais, com raríssimos casos de hepatotoxicidade,” alerta. O maracujá pode causar sedação excessiva e, em doses muito altas, levar à ataxia e depressão do sistema nervoso central. A lavanda requer particularmente cuidados quanto a interações medicamentosas, pois pode potencializar efeitos sedativos de narcóticos e outros sedativos.
A ciência ainda em construção
Apesar do uso tradicional dessas ervas, a sua aceitação na medicina convencional enfrenta desafios. A Dra. Inácia destaca a necessidade de mais pesquisas rigorosas e abrangentes. “É crucial que sejam realizados ensaios clínicos maiores e melhores delineados para que se estabeleçam recomendações claras. A prática clínica também pode variar significativamente de acordo com fatores como duração do tratamento e método de preparação das infusões”, conclui.



