
De acordo com informações levantadas pelo www.cnnbrasil.com.br, a decadência da economia russa se torna evidente em um shopping center de luxo nos subúrbios de Moscou.
No Goodzone, um extenso centro de compras inaugurado em 2014, a animação da música pop que ecoa em seu átrio se contradiz com a realidade de lojas com fachadas vazias e janelas tapadas com tábuas, um reflexo claro da crise econômica que atinge o país. O espaço que um dia exibia um cinema multiplex com oito salas agora encontra-se deserto, com as luzes apagadas e uma quantidade alarmantemente baixa de clientes circulando.
Desde a grande invasão em larga escala da Ucrânia, a economia russa tem se adaptado de maneira surpreendente, impulsionada por um aumento nos gastos militares e um crescimento nas exportações de petróleo para mercados como China e Índia. No entanto, os sinais de estresse econômico começaram a emergir, culminando em uma contração de 1,8% no PIB durante os dois primeiros meses de 2026. Em uma reunião de governo em abril, o presidente Vladimir Putin expressou sua preocupação ao afirmar que a desaceleração do crescimento econômico se tornava evidente e exigiu explicações para tal deterioração nos indicadores macroeconômicos.
Gennady Zyuganov, líder do Partido Comunista da Rússia, não hesitou em criticar a falta de respostas adequadas por parte do governo diante das preocupações expostas por Putin. Durante uma recente sessão na Duma Estatal, ele fez um alerta dramático sobre os riscos de uma possível revolução bolchevique caso a situação econômica não fosse controlada.
Enquanto Zyuganov evita criticar diretamente Putin, ele fez questão de chamar a atenção para as direções preocupantes que a economia está tomando, alertando que a continuidade desse rumo levará ao colapso.
Shopping deserto “semi-apocalíptico”
Embora a Rússia ainda não enfrente agitações sociais em larga escala e outros shoppings, como o Aviapark, pareçam prosperar, funcionários do Goodzone manifestam sua preocupação com a queda acentuada no fluxo de visitantes. Ivan, que trabalha como caixa em uma das principais redes varejistas do país, compartilhou sua luta em manter o emprego em meio a uma crise, apontando para a tela de seu caixa,onde apenas 13 transações haviam sido registradas durante um dia, totalizando cerca de 3.417 rublos (aproximadamente US$ 45).
"A situação no Goodzone é quase apocalíptica", destacou Ivan, evidenciando a vastidão do shopping que parece feito para acomodar um número imenso de pessoas, mas que, atualmente, parece um labirinto vazio. A administração do shopping, contatada pela CNN, menciona reformas e a introdução de novos lojistas, embora essas mudanças ainda não se reflitam na realidade.
A campanha publicitária do shopping oferece espaços comerciais a preços extremamente baixos, começando em 1 rublo (cerca de US$ 0,01) por metro quadrado, um sinal claro de que muitas lojas estão em desuso desde a partida de marcas ocidentais. Duas funcionárias de uma loja de presentes resumiram a situação atual, mencionando que a loja quase se tornou um depósito.
“Estamos apenas esperando que a situação não piore, pois o poder de compra diminuiu drasticamente desde 2022”, disseram as mulheres, refletindo o desapontamento com a realidade econômica. Seus relatos destacam que enfrentar o aumento das exigências tributárias está se tornando insustentável para muitos pequenos empresários, que estão lutando para manter suas operações.
“O ciclo de expansão acabou”
Para enfrentar essa crise, o governo russo já implementou aumentos em impostos, como o imposto sobre a renda e o imposto sobre as empresas, elevando o IVA para 22% a partir de janeiro de 2026. Ruben Enikolopov, da Escola de Economia de Barcelona, observa que, no início da invasão da Ucrânia, o Kremlin possuía uma dívida pública baixa e reservas robustas, mas o tempo de injeção de dinheiro por gastos militares mostrou-se limitado.
Ele admite que embora os altos preços de energia tenham beneficiado inicialmente a Rússia, os ataques da Ucrânia às suas refinarias têm gerado restrições significativas nas vendas de petróleo. O ministro do Desenvolvimento Econômico, Maxim Reshetnikov, reconheceu que as recentes aumentos de impostos têm pressionado as empresas, acrescentando que as reservas estão se esgotando e a situação econômica geral está se tornando cada vez mais complexa.
Os ricos ficam mais ricos, os pobres ficam mais pobres
Apesar das dificuldades enfrentadas por muitos cidadãos, a desigualdade econômica se acentua, com bilionários russos aumentando sua riqueza em 11% no último ano, segundo a Forbes Rússia. A pesquisadora Alexandra Prokopenko, do Carnegie Russia Eurasia Center, enfatiza que a guerra tem amplificado a disparidade de renda entre os cidadãos.
Este fenômeno é especialmente visível em Golitsyno, uma pequena e empobrecida cidade nas redondezas de Moscou, onde muitos moradores enfrentam a inflação exacerbada pelos conflitos. Lyubov Sergeevna, uma aposentada que vive com o recurso do marido, é um exemplo. Em meio a aluguel alto e aumentos de preços sem fim, ela se mostra pessimista em relação ao futuro econômico, embora continue a apoiar o que o governo russo chama de “operação militar especial”.
"Esperamos que essa resistência seja por uma boa causa; não há mais nada a fazer", reflete ela.



