
Conforme reportado pelo portal www.cnnbrasil.com.br, vinte anos após o estado de São Paulo ter enfrentado a sua mais severa crise de segurança pública, os resultados dos chamados "Crimes de Maio" de 2006 ainda estão sendo investigados. A crise teve início em 12 de maio daquele ano, após a transferência de líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital) para unidades de segurança máxima. Essa ação desencadeou uma série de ataques planejados pela facção criminosa, que resultaram em uma impressionante quantidade de mortes em apenas nove dias.
O estudo realizado pelo Caaf (Centro de Antropologia e Arqueologia Forense) da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), com apoio do LAV-Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), revela que ao todo houve 564 vítimas fatais, incluindo tanto civis quanto policiais. Além disso, 110 pessoas ficaram feridas durante esse período, evidenciando a gravidade da onda de crimes. O estudo fornece uma linha do tempo detalhada, indicando que a maioria das mortes de agentes de segurança ocorreu nos dois primeiros dias dos ataques, enquanto as de civis se estenderam para os dias seguintes. Contudo, a pesquisa não alcançou identificar as datas exatas referentes a 80 civis e quatro agentes mortos.
O levantamento também caracteriza o perfil das vítimas civis; notou-se que 96% eram homens, com uma média de idade de apenas 27 anos. Em média, cada vítima recebeu quase cinco disparos. Surpreendentemente, 77% das vítimas foram atingidas em áreas extremamente letais, como a cabeça e o tórax.
A crise teve seu ponto inicial oficialmente reconhecido em 11 de maio de 2006, quando a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) decidiu transferir 765 presos, incluindo figuras de destaque do PCC, como Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola, para uma penitenciária em Presidente Venceslau.
Em entrevista ao portal, Lincoln Gakiya, promotor de Justiça do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo, descreveu os eventos como "uma das piores operações da história do estado." O promotor criticou a remoção dos presos como desorganizada e sem um planejamento de risco adequado, levando a um "apagão" de inteligência nas forças policiais.
Após a ação inicial, rebeliões simultâneas ocorreram em 74 penitenciárias e ataques coordenados eram direcionados a delegacias, viaturas e instalações de segurança, causando pânico em uma das maiores cidades da América do Sul. Esta ofensiva da facção criminosa cessou apenas em 14 de maio, Dia das Mães, quando segundo Gakiya, houve uma negociação entre o governo e o PCC, buscando uma trégua.
Com o recuo da facção, teve início uma forte reação liderada por policiais e grupos de extermínio, que começaram a operar nas periferias da cidade. Gabriel Sampaio, diretor da ONG Conectas Direitos Humanos, denunciou que a resposta do estado foi desproporcional e se caracterizou por execuções sumárias e várias violações dos direitos humanos.
Para as famílias dos civis mortos, a versão oficial de "confronto armado" é contestada. Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Independente Mães de Maio, que reúne parentes das vítimas, perdeu seu filho, Edson Rogério, um gari que foi executado sem qualquer antecedente criminal. Em declarações à CNN Brasil, ela enfatizou que essa matança civil foi motivada pela retaliação e não representa um conflito com as comunidades locais, mas sim com o estado.
Débora critica o que classifica como "negacionismo judicial" enfrentado pelas famílias, ressaltando que a verdadeira história dessas tragédias é frequentemente ignorada pelas autoridades. Ela conclui afirmando que "A história não foi contada pelo Estado. A história só é revelada pelas mães, pelas narrativas das mães."
(em colaboração com informações da Agência Brasil)



