
Cirurgia Dentária Pré-Histórica: Um Neandertal de 59.000 Anos e sua Notável Capacidade de Tratamento Odontológico
De acordo com informações levantadas pelo www.cnnbrasil.com.br, uma descoberta surpreendente em uma caverna na Sibéria revela que há aproximadamente 59.000 anos, um Neandertal experienciou uma dor intensa de dente provocada por uma cárie profunda em um molar inferior. O dente foi encontrado na Caverna Chagyrskaya, que abriga uma significativa coleção de fósseis neandertais, localizada na margem esquerda do rio Charysh, ao pé das montanhas Altai, no sul da Sibéria.
Evidências de Habilidade Odontológica Antiga
Os pesquisadores envolvidos na análise do dente afirmam que ele fornece provas concretas de que os neandertais possuíam habilidades avançadas em procedimentos odontológicos, muito antes do surgimento do Homo sapiens. Essa descoberta desafia a crença antiga de que tais práticas só seriam desenvolvidas pelos humanos modernos. A evidência de uma cirurgia, realizada com uma ferramenta de pedra para a remoção da cárie e alívio da dor, foi evidente no dente encontrado.
No centro do molar, os especialistas identificaram um buraco profundo que atinge a câmara pulpar, onde estão localizadas as terminações nervosas e os vasos sanguíneos. Marcas visíveis no dente e a forma do orifício sugerem que a modificação foi um ato deliberado, e não um dano acidental. Além disso, as marcas de desgaste encorajam a hipótese de que o indivíduo viveu por um tempo significativo após o procedimento odontológico.
Esta indicação de tratamento dental precoce é corroborada por experimentos com dentes humanos modernos, que confirmam que buracos similares poderiam ser criados com ferramentas de pedra como as que foram encontradas na caverna Chagyrskaya.
O Impacto da Descoberta na Compreensão dos Neandertais
A pesquisa, liderada pela arqueóloga Ksenia Kolobova do Instituto de Arqueologia e Etnografia da Academia Russa de Ciências, destaca esta descoberta como a evidência mais antiga conhecida de cirurgia dentária invasiva. Kolobova explica que isso demonstra que os neandertais eram dotados de habilidades cognitivas sofisticadas, incluindo planejamento e técnica médica deliberada, desafiando as noções pré-concebidas de que tais comportamentos eram isolados aos Homo sapiens.
“Essa complexidade demonstra que eles possuíam uma capacidade única de diagnosticar problemas, entender como a remoção de tecido cariado poderia aliviar a dor e selecionar a ferramenta adequada,” afirmou Kolobova. Embora o dente analisado pertença a um adulto, seus pesquisadores não conseguem determinar o gênero do individuo.
A antropóloga Alisa Zubova, coautora do estudo, complementa que o tratamento encontrado se alinha com práticas modernas de cuidado de lesões cariosas, reforçando o entendimento sobre os tratamentos que poderiam ser realizados pelos neandertais.
Adicionalmente, houve a descoberta de que os neandertais também utilizavam palitos para a remoção de restos alimentares de seus dentes, ressaltando ainda mais suas práticas de higiene bucal.
Uma Nova Perspectiva sobre o Passado e os Neandertais
Até o momento, o mais antigo registro de prática odontológica era um dente de Homo sapiens encontrado na Itália, datado em aproximadamente 14.000 anos atrás. Apesar da extinção dos neandertais há cerca de 40.000 anos, a maioria da população atual carrega uma pequena porção do DNA de seus antepassados, resultado de cruzamentos entre as duas espécies.
Os neandertais ocuparam a Caverna Chagyrskaya entre 59.000 e 49.000 anos atrás, onde atividades como o abate de bisões e cavalos eram comuns, além de demonstrarem a vida doméstica, como evidenciado pela descoberta de dentes de leite no local.
A coautora do estudo, Lydia Zotkina, mencionou que o procedimento cirúrgico provavelmente foi bastante doloroso. “Essa força de vontade notável é impressionante. Pode-se imaginar como seria suportar uma operação como essa sem anestesia ou ferramentas modernas,” refletiu.
O buraco encontrado no molar abrange praticamente toda a superfície de mastigação, evidenciando a complexidade do tratamento. Experimentos complementares realizados com uma ferramenta de jaspe, uma rocha comum na época, demonstraram que a técnica mais eficaz para a perfuração seria um movimento de rotação controlado. Além disso, levantaram a hipótese de que a cavidade resultante poderia ter sido preenchida com alguma substância, embora até agora nenhuma evidência material tenha suportado essa ideia.
Esses novos dados fornecem uma visão fascinante das capacidades cognitivas e habilidades técnicas dos neandertais, oferecendo uma janela para a compreensão de suas vidas e práticas de cuidados pessoais.



