Por Mariana Caminha
Neste espaço, já abordei como os povos indígenas mantêm uma conexão profunda com a natureza e como essa perspectiva pode nos auxiliar em tempos de crise climática. Essa reflexão começou para mim em uma conversa com Daniel Iberê, indígena Guarani Mbya, que me fez perceber a diferença entre como indígenas e não indígenas enxergam o mundo.
Para os Guarani, o conceito de ‘parente’ é muito mais amplo. Enquanto, para muitos, parentes são limitados a familiares, para eles, tudo está interligado. “O arco é parente da flecha, o remo é parente da canoa, e assim por diante. Para nós, a morte de uma árvore é profundamente significativa.” Assim, muitos brasileiros, que não têm essa vivência, podem não compreender essa ligação essencial.
Um recente censo demográfico revelou que o Brasil abriga aproximadamente 1,7 milhão de indígenas, distribuídos por todas as regiões do país, tanto em áreas urbanas quanto rurais. Apesar dessa proximidade física, a realidade dos povos indígenas ainda é bastante distante da vivência diária da maioria dos brasileiros. Quinze séculos após a chegada dos europeus, continuamos compartilhando o mesmo solo, mas raramente as mesmas experiências.
A aprendizagem sobre os indígenas nos livros de história e nas campanhas publicitárias é comum, mas poucos têm a oportunidade de realmente interagir com essas culturas. Essa desconexão revela um paradoxo: somos um país rico em diversidade, mas conhecemos pouco sobre a diversidade presente em nosso próprio território.
Com isso em mente, decidi proporcionar ao meu filho, Santiago, uma oportunidade que eu mesmo não tive. Na próxima sexta-feira, levarei Santiago, de 12 anos, para a Aldeia Multiétnica, localizada na Chapada dos Veadeiros. Durante cinco dias, ele terá a chance de conviver com diferentes povos indígenas, aprendendo sobre suas línguas, tradições e visões de mundo.
Essa experiência certamente será memorável para ele, que tem crescido em um ambiente urbano, cercado de carros e prédios. Agora, ele terá a chance de aprender diretamente com povos que cultivam uma relação respeitosa com a natureza.
A Aldeia Multiétnica tem como proposta promover a convivência, não apenas a observação. E essa interação tem tudo a ver com os desafios climáticos que enfrentamos. A crise do clima é frequentemente abordada sob uma perspectiva tecnológica, mas também é fundamental entender que a separação entre humanos e natureza é uma ideia prejudicial. Para muitas culturas indígenas, essa separação não existe.
O território, para eles, vai além de um espaço físico; é sinônimo de memória e identidade. Os conhecimentos sobre cultivo de plantas, manejo florestal e sustentabilidade têm sido subestimados por muito tempo, mas a ciência finalmente começa a reconhecer seu valor. Um estudo aponta que apenas 1,7% do desmatamento no Brasil entre 2019 e 2025 ocorreu em terras indígenas, que se mantêm entre as áreas mais preservadas do país.
Essa realidade evidencia a importância não só de preservar as culturas indígenas, mas também de reconhecer que suas sabedorias podem ser parte das soluções necessárias para enfrentar a crise climática.
Nos próximos dias, a Aldeia Multiétnica dará chance a pessoas de diferentes origens para compartilharem experiências, refeições e histórias. Em tempos em que algoritmos nos afastam de quem pensa diferente, essa convivência se torna um ato significativo. A proteção do que ainda nos resta do meio ambiente depende de reaprendermos o que muitos povos já sabem: um futuro sustentável está intrinsicamente ligado à natureza.
Na sexta-feira, eu e Santiago estaremos entre essas pessoas, e espero que voltaremos transformados por essa experiência.
Com informações de metropoles.com.







