Filantropia e riqueza sempre estiveram interligadas. Desde os patronos da Roma Antiga até os grandes doadores da era industrial americana, como Andrew Carnegie e John D. Rockefeller, a prática de retribuir à sociedade fez parte da acumulação de riquezas ao longo da história. Contudo, nos últimos 20 anos, a forma como esse dinheiro é distribuído passou por mudanças significativas. A filantropia baseada apenas na emoção deu espaço a um modelo que se aproxima da gestão de investimentos, o que tem sido acompanhado por especialistas, como Maximilian Martin, do banco suíço Lombard Odier.
Fundado em 1796 em Genebra, o Lombard Odier criou sua própria fundação corporativa em 2004, e em 2008, estruturou um sistema “guarda-chuva” para atender a projetos filantrópicos de seus clientes. Um estudo do UBS projeta que nos próximos 25 anos, cerca de 124 trilhões de dólares (aproximadamente 640 trilhões de reais) serão transferidos entre gerações apenas nos Estados Unidos, com 18 trilhões de dólares (quase 93 trilhões de reais) destinados à filantropia.
Da Cruz Vermelha aos dias atuais
A relação do Lombard Odier com a filantropia remonta à história de Genebra, um importante entreposto comercial desde a época romana. Martin destaca que os fundadores do banco já apoiavam iniciativas sociais no passado, como o trabalho de Henri Dunant, um dos fundadores do movimento da Cruz Vermelha, no século 19. O banco, ao longo do século 20, também esteve envolvido na criação de fundos de pensão para funcionários e na formação de redes de crédito mútuo, predecessoras do microcrédito.
Em 2004, a Fondation Lombard Odier consolidou essas iniciativas em três programas: um voltado para ação humanitária, outro para educação, e o terceiro, chamado de “local”, aplica ações nas regiões onde o banco está presente, atualmente com mais de 20 escritórios pelo mundo. Em 2024, um quarto eixo, focado em meio ambiente, será adicionado às iniciativas filantrópicas do banco.
Martin refere-se à fundação corporativa como um laboratório, buscando impacto e inovação sem priorizar protagonismos, mas sim parcerias eficazes. Um exemplo dessa abordagem foi o impacto bond humanitário desenvolvido em colaboração com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha em 2016, que arrecadou cerca de 26 milhões de francos suíços para melhorar o atendimento a pessoas com deficiência em zonas de guerra.
Outro projeto recente é a parceria com o Swiss Polar Institute para financiar pesquisas sobre o degelo do permafrost nos Alpes suíços, devido ao aquecimento global que tem afetado essa região rapidamente.
Filantropia sob medida
Para os clientes, a abordagem é diferenciada. Martin ressalta a intenção de não padronizar a experiência filantrópica, que é muito pessoal. O banco oferece uma consultoria que leva em conta as preferências individuais, contemplando desde a preservação de patrimônio até a geração de impacto social. Atualmente, a gestão inclui projetos variados, desde a proteção de rinocerontes ameaçados até a restauração de patrimônios históricos, incluindo um significativo investimento no Palácio de Versalhes.
Martin destaca também o fundo NITIFA, voltado à pesquisa sobre esquizofrenia, que nasceu a partir de um estudo conjunto feito com a Organização Mundial da Saúde durante a pandemia. O banco cria caminhos para que as iniciativas filantrópicas deem frutos, seja por meio da Umbrella Foundation, que facilita a gestão de fundos individuais, ou através de fundações próprias para clientes com maior volume de recursos.
O DNA da filantropia
Antes de desenhar qualquer estrutura filantrópica, o Lombard Odier analisa o “DNA filantrópico” do cliente, considerando suas preferências em visibilidade, envolvimento familiar e investimento em causas pequenas ou grandes. Martin acredita que não existe um conflito inerente entre a geração de lucros e o impacto social, desde que os objetivos sejam bem definidos desde o início.
A estrutura do patrimônio filantrópico é dividida em três frentes: ativos de alta liquidez para compromissos já assumidos, investimentos de médio prazo e aplicações de longo prazo, que buscam amplificar retornos e garantir a sustentabilidade futura.
Entre gerações
A destinação integral do patrimônio à filantropia ainda é rara. Muitas famílias iniciam com uma parte limitada de seus ativos e ampliam essa participação ao longo do tempo. A sucessão patrimonial é um desafio constante, com legislações que garantem aos herdeiros uma parte da herança. Assim, é comum que a filantropia faça parte da governança familiar, com herdeiros envolvidos na gestão dos recursos. Um levantamento do Lombard Odier está por vir, comparando perfis de filantropos em diferentes regiões, incluindo Suíça e Singapura.
Dados indicam que a Suíça possui cerca de 14 mil fundações, com patrimônio conjunto de aproximadamente 160 bilhões de francos suíços. No entanto, Martin ressalta que os recursos ainda são insuficientes diante da magnitudade dos desafios globais, com a necessidade de quatro trilhões de dólares anuais para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
A oportunidade brasileira
No Brasil, a agenda ambiental tem ganhado destaque e deve ser priorizada nas iniciativas filantrópicas futuras. Embora a atuação de fundações locais tenha se concentrado em educação e saúde, Martin acredita que é possível integrar essas áreas com questões ambientais, visto que estão interconectadas.
Contudo, existe o desafio de aumentar os investimentos em infraestrutura filantrópica, fortalecendo organizações que trabalham para desenvolver capacidades no setor. Muitas vezes, os filantropos preferem investir em ações diretas, mas organizações que criam condições favoráveis para o funcionamento do setor também são fundamentais.
Com informações de forbes.com.br.









