(por Mariana Caminha)
Nos últimos tempos, uma questão tem mexido com minha cabeça enquanto trabalho com comunicação sobre mudanças climáticas. A reflexão não gira em torno de modelos climáticos ou tecnologias, e sim da dúvida sobre o porquê de, mesmo com acesso a conhecimentos científicos sobre as mudanças no clima, ainda não conseguimos nos unir para mudar um futuro que sabemos ser desastroso.
Essa inquietação me levou a explorar a antropologia, especialmente a Antropologia das Mudanças Climáticas, um campo que revela que a crise climática é, antes de tudo, um problema humano, e não apenas ambiental ou tecnológico.
Embora as emissões de gases sejam físicas, as decisões que levam a essas emissões são questões culturais. Por muito tempo, acreditávamos que comunicar melhor a ciência seria o suficiente para fomentar a ação. Porém, existe um espaço invisível entre entender um problema e agir sobre ele, onde emoções, identidades, valores e normas sociais influenciam nossas escolhas.
A antropologia, em colaboração com áreas como psicologia e ciências comportamentais, investiga essa complexa dinâmica. A crise climática não está paralisada pela falta de evidências, mas pela dificuldade em mudar comportamentos humanos. Para ilustrar, basta pensar em hábitos prejudiciais, como fumar ou ser sedentário, que muitas pessoas mantêm mesmo sabendo dos malefícios.
A resistência à crise climática, segundo o pesquisador britânico George Marshall, não se deve à ignorância, mas sim ao fato de que nossos cérebros não estão preparados para lidar com ameaças longínquas e difusas. A mudança climática é lenta e seus efeitos se espalham pelas décadas, tornando difícil mobilizar atenções em um cenário repleto de preocupações imediatas, como contas a pagar e compromissos diários.
Além disso, a falta de diálogo sobre mudanças climáticas nas interações cotidianas contribui para que muitos vejam o assunto como menos relevante. Esse é um dos motivos pelos quais o interesse pela Antropologia das Mudanças Climáticas tem crescido nas universidades, focando mais em como crenças e emoções influenciam nossas ações diante da crise do que nas questões técnicas de reduções de emissões.
A antropologia também questiona como diferentes sociedades percebem a natureza. Em muitas culturas ocidentais, a natureza é vista como algo separado do ser humano; já diversos povos indígenas a enxergam como parte integral de suas vidas. Para eles, a proteção da natureza não é apenas um dever, mas um cuidado consigo mesmos e com a coletividade.
Marshall sugere que é crucial priorizar conversas sobre o que realmente importa para as pessoas, como proteger suas famílias e comunidades, ao invés de focar apenas em dados técnicos. É essa abordagem que pode explicar o sucesso de algumas iniciativas climáticas frente a outras, que nem sempre atingem seus objetivos por falta de uma narrativa envolvente.
Estudar essa interseção entre ciência e cultura mostra que elas se complementam, pois enquanto a ciência ilumina os problemas que o planeta enfrenta, a antropologia nos ajuda a entender por que ainda hesitamos em agir diante do que sabemos ser uma urgência.
Com informações de metropoles.com.







